Webinar da Flourish discute os desafios e oportunidades da transição para o orgânico

Assistência técnica e garantias para o produtor ajudam a viabilizar agricultura orgânica
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Segundo dados do IFOAM (2018), entidade internacional que organiza os dados do setor de orgânicos, apenas 0,3% da área agrícola brasileira produz alimentos orgânicos, número que deve crescer em resposta às atuais “tendências de consumo”. Quais os principais desafios e oportunidades da transição de uma produção no modelo chamado convencional para a produção orgânica? O que pode ser feito para acelerar o processo de transição para produção orgânica?

Para discutir esses temas a Flourish [Negócios com Propósito] chamou para conversar três pessoas com experiência em processos de transição para o sistema de produção orgânico. Vânia Lúcia Pereira da Silva, produtora de café orgânico e presidente da COOPFAM; Eliezer Reis Jorge, diretor-presidente da Cooperativa dos Costas, e Luiz Carlos Demattê Filho, CEO da Korin Agricultura e Meio Ambiente, compartilharam suas experiências no segundo webinar da Flourish, mediado pelo fundador da iniciativa, Gustavo Mamão.

Pioneira na produção de café orgânico, a COOPFAM é uma cooperativa de agricultura familiar com mais 30 anos de história. “Prezamos o cuidado com a terra e com o meio ambiente. Isso é parte da nossa essência. A cooperativa surgiu como um caminho para valorizar o nosso produto”, contou Vânia. Entretanto, foram muitos os desafios, especialmente no início do processo. “Nos anos 1980, quando começamos, não havia assistência técnica, faltava conhecimento sobre manejo orgânico. Por isso, tivemos uma queda muito grande na produtividade. Muitos produtores abandonaram o processo com os orgânicos”, disse a presidente Vânia. O principal aprendizado, segundo ela, é que para que a transição seja bem-sucedida, é fundamental dar segurança ao produtor, acompanhando todo o processo. “Com isso, minimizamos os riscos de forma que o cooperado não tenha nenhum tipo de prejuízo”, afirmou.

Pensar novos sistemas para produzir alimentos é a principal motivação do médico veterinário Luiz Carlos. Foi esse propósito que o levou à Korin Agricultura e Meio Ambiente, empresa que oferece soluções sustentáveis para a agricultura e pecuária, mas também à presidência da Câmara Temática de Agricultura Orgânica e ao Conselho Nacional de Bioinsumos, ambos ligados ao Ministério da Agricultura. “Movido por uma tendência mundial de crescimento do consumo de produtos orgânicos, nos últimos 10 anos boas soluções tecnológicas têm surgido para ajudar no processo de transição para o orgânico. Isso, aliado ao compartilhamento de experiências, têm tornado todo o processo mais acessível. Mesmo assim, há uma curva de aprendizado”, afirmou. Para ele, é preciso criar mecanismos para valorizar o produtor em transição. “Durante a transição, quando ainda não conseguiu adicionar valor ao seu produto, ele fica em uma espécie limbo e isso é um problema”.

“Durante a transição, quando ainda não conseguiu adicionar valor ao seu produto, ele fica em uma espécie limbo e isso é um problema”.

Luiz Carlos Demattê Filho – CEO da Korin Agricultura e Meio Ambiente

Para Eliezer Jorge, da Cooperativa dos Costas, a demanda por café orgânico representa uma grande oportunidade comercial que o Brasil pode atender. “Isso nos motivou a implantar um projeto de transição na Cooperativa mesmo com todas as limitações de solo e de baixa altitude que temos em nossa região, o município de Boa Esperança, ao lado do lago da Represa de Furnas, em Minas Gerais”, explicou. “Nós tivemos que aprender na marra, começando do zero. Demoramos três anos até conseguir exportar e nesse período a produtividade cai. É um baque. No nosso caso, alguns produtores desistiram”, contou. Hoje a Cooperativa dos Costas tem as certificações “Orgânico Brasil” e “Orgânico Exportação”. Passada a transição, a Cooperativa vem crescendo. O número de produtores engajados na produção orgânica de café dobrou, a área plantada cresceu quase 10 vezes e há planos de expansão. Mas os desafios continuam.

Hoje temos mais tecnologia e conhecimento sobre o processo de transição. Mesmo assim, segundo Eliezer, a agricultura orgânica demanda muito mais profissionalismo do que o plantio convencional. “Precisa de um trabalho intenso, prevenindo, remediando, não com química, mas aumentando a resistência da planta com os recursos da natureza. Se não tiver um solo equilibrado eu não vou ter uma planta equilibrada”, explica. Daí a importância da assistência técnica da Cooperativa, por meio da qual também é possível compartilhar conhecimento, aprendizados e os bons resultados. “Nossa motivação para crescer não é puramente pelo lucro. É claro que queremos ganhar dinheiro, uma remuneração justa, mas também queremos compartilhar os resultados de forma sustentável, entregar um produto sem agredir o meio ambiente, o funcionário, nossas famílias e nem quem está consumindo. É um modo de produção em que todos ganham”, arrematou.

É claro que queremos ganhar dinheiro, uma remuneração justa, mas também queremos compartilhar os resultados de forma sustentável, entregar um produto sem agredir o meio ambiente, o funcionário, nossas famílias e nem quem está consumindo. É um modo de produção em que todos ganham”

Eliezer Reis – Diretor Presidente da Cooperativa dos Costas

A agricultura orgânica é um modelo que se desenvolve essencialmente a partir da capacidade de capturar valor. Entretanto, segundo Luiz Carlos, da Korin, no Brasil temos uma deficiência. “Não temos uma estrutura social capaz de capturar valor. Não aprendemos a fazer isso: criar cadeias produtivas que capturem valor. Então, essa não é uma questão da agricultura orgânica, mas um problema conjuntural do país. Aprender a capturar valor é algo que temos que assimilar na sociedade como um todo”, disse.

Afinal, o que temos que valorizar? Para Vânia, da COOPFAM, é fundamental compreender o que é realmente importante para todos nós, como seres humanos.

“O amor à terra e à natureza, a consciência em relação ao meio ambiente, isso é a agricultura orgânica. E para ela crescer, temos que continuar investindo na cooperação, compartilhando os aprendizados, juntar forças para deixar um legado, um mundo melhor para as próximas gerações!

Vânia Lúcia Pereira da Silva – Presidente da Coopfam

Assista o webinar na íntegra e inscreva-se no Canal da Flourish [Negócios com Propósito] no Youtube

CRÉDITOS | Redação: Patrícia Mariuzzo

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