Transição para orgânico: desafios e oportunidades

O caso da Cooperativa dos Produtores de Café dos Costas
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Autores: Gustavo Mamão, Patrícia Mariuzzo e Débora Rabelo

O café é uma bebida única e apreciada em todo o mundo. São milhões de xícaras que nos despertam pela manhã, que dão um toque final no almoço, que suavizam reuniões de trabalho e, claro, que movimentam bilhões de dólares. Mas, para isso houve uma longa evolução nas formas de produzir e de beber café, uma história que pode ser contada por ondas. Iniciada no Pós 2ª Guerra Mundial, a 1ª onda do café se traduz na visão de bebida estimulante com objetivo de consolidar o hábito de consumo domiciliar, em um mercado preocupado com volume de produção. A segunda onda teve início nos anos 1970, quando começam a aparecer os primeiros cafés especiais, com foco no café expresso e ao consumo fora de casa. Segundo especialista do setor, estamos em uma terceira onda do café, caracterizada pela valorização da qualidade da bebida, pela preocupação com a origem dos grãos e métodos de preparo.

Como será a quarta onda? Quais tendências de consumo surgirão no pós-2020? O crescimento da área de produção orgânica de café nos últimos anos mostra um claro interesse em formas de produção mais sustentáveis. Seria essa uma das características dessa nova onda? E como está o Brasil neste cenário?

O café no Brasil e no mundo

O café é o quinto produto na pauta de exportações do Brasil. Atualmente a área plantada é de 2,16 milhões de hectares. Segundo informações da ABIC (Associação Brasileira da Indústria do Café), o país é o maior produtor e exportador de café do mundo. Na safra 2018-2019 foram produzidas 61,6 milhões de sacas (de 60 kg), o que corresponde a 35,3% da produção mundial. Em 2019, os “cafés do Brasil” foram exportados para 128 países, atingindo o volume de 40,6 milhões de sacas, um acréscimo de 13,9% em relação ao de 2018.

A despeito de sermos o maior produtor e exportador de café, estamos longe de uma posição de destaque no cenário da cafeicultura orgânica. Internacionalmente, o café é a cultura perene de maior destaque neste modelo de produção, cuja área de plantio se multiplicou por cinco, de 2004 a 2017. Cerca de 8% de todo o café produzido no mundo é orgânico, ocupando uma área aproximada de 900 mil ha. Os dados da produção orgânica brasileira de café não foram consolidados e não fazem parte do último relatório de produção mundial do IFOAM, entidade que organiza os dados mundiais de produção orgânica. Mesmo assim é possível afirmar que o Brasil está distante de países como o México (231.000 hectares), a Etiópia (161.000 hectares) e o Peru (110.000 hectares), principais produtores de café orgânico no mundo.[1] 

Café: desenvolvimento da área orgânica global 2004-2017

Por que o Brasil não tem a mesma relevância no mercado de cafés orgânicos mundiais? A melhor hipótese que temos é que, ao longo dos anos, nos “especializamos” em fazer parte de uma cadeia de produção de commodities, reflexo, entre outros fatores, do avanço do paradigma de produção da agricultura industrial que favoreceu a produção do café em larga escala, porém sem levar em consideração modelos de produção mais sustentáveis ou que pudessem agregar valor ao produto. 

Alguns produtores brasileiros, entretanto, estão começando a entender o potencial da produção de café orgânico. É um modelo mais sustentável, não somente no aspecto ambiental, mas também no econômico e com o potencial de resiliência a crises econômicas e climáticas. Os benefícios do café orgânico podem ser especialmente capturados pela agricultura familiar e em modelos de produção baseados em um cooperativismo autêntico, onde um dos principais inibidores – o custo de mão de obra – pode ser suplantado pela proximidade dos produtores com a lavoura, pela sintonia entre as pessoas que vivem no campo e os cuidados que conseguem dedicar à terra, colhendo benefícios diretos também para sua saúde e a de suas famílias. 

O caso da Cooperativa de Produtores de Café Especial dos Costas, localizada em Boa Esperança, sul de Minas Gerais, aponta um caminho para a transição da cafeicultura convencional para a orgânica. Com apoio técnico e financeiro, produtores colhem resultados superiores aos do plantio convencional a partir do terceiro ano do início da transição.

Fonte: banco de imagens Café Abraço

Números do café ou “desvendando a questão do preço”

As escolas de negócios ensinam que o preço de um produto é resultado do custo de produção; da relação de oferta e demanda; da percepção de valor pelo cliente e do nível de competição em um determinado mercado.

Vejamos então, como esses fatores se aplicam ao caso do café, comparando o modelo de produção de café convencional, o mais adotado atualmente no Brasil, e o modelo de produção que adota práticas da certificação de produto orgânico (“café orgânico”). Utilizando dados do projeto de transição para orgânico da Cooperativa de Produtores de Cafés dos Costas de Boa Esperança, faremos algumas análises.   

Custo de produção

Na tabela abaixo podemos observar o custo de produção do café convencional e do orgânico:

Custo de produção café convencionalCusto de produção café orgânicoVariação % (Orgânico / Convencional)
R$ 10.800 / haR$ 13.868 / ha28%
Fonte: Cooperativa dos Costas

Embora à primeira vista haja uma tendência de considerar que o custo da produção do café orgânico deveria ser inferior, por dispensar insumos agrícolas como fertilizantes químicos e agrotóxicos, o custo superior é determinado por diferenças no manejo, como uso mais intensivo de mão-de-obra e alguns insumos mais caros, justificado em alguns casos por sua menor escala de produção.

Então, a partir desta análise temos o primeiro número a ser considerado:a produção de café orgânico tem custo 28% superior em relação ao café convencional.

Valor de venda

Assim como em outras grandes culturas agrícolas, o preço de uma saca de café é definido a partir de oferta (produção) e demanda (consumo) mundiais. Por não ser um produto homogêneo, o café não tem um valor único de mercado. Entretanto, o preço de suas principais categorias comercializadas no mundo permite compor indicadores de preço. A International Coffee Organization (ICO), com sede em Londres, acompanha e publica os principais indicadores de preço diariamente.

Porém, se uma diferenciação for “percebida”, seja por meio de algum tipo de certificação ou por um padrão de qualidade superior, o valor piso deixa de ser a referência. Neste ponto podemos fazer a distinção entre um preço definido pela lógica de oferta e demanda para aquele preço que também é determinado pela “percepção de valor pelo cliente”.

Por que alguns sistemas de produção, como fair trade, orgânico, recebem um “prêmio”? O sentido do prêmio, que se expressa no valor superior pago por saca de café, além do fator qualidade, revela também a responsabilidade e saudabilidade nos métodos de produção. Esse “fator prêmio” ajuda entendermos também o impacto positivo de alguns modelos de produção: cuidados com o meio ambiente, valorização do pequeno produtor e de sua comunidade, justiça econômica com cada participante da cadeia produtiva.

Daí que a determinação do preço final de cafés convencionais e cafés orgânicos se dá por razões distintas, que vão muito além do fator de “custo de produção”. Com base nos dados recentes da colheita de 2020, podemos comparar os preços médios dessas duas categorias de produtos:   

Preço médio café convencional Preço médio café orgânico*  Variação % (Preço Orgânico / Convencional) = ágio de venda
R$ 551 / sacaR$ 1.320 / saca140%
Fonte: Cooperativa dos Costas; (*) café orgânico exportação; transição completa de 3 anos

Neste ponto da história fica faltando uma variável para fecharmos a equação de retorno sobre o investimento na perspectiva do produtor: a produtividade relativa do produto orgânico com relação ao produto convencional. Acontece que esta produtividade não é igual ao longo dos anos da transição do modelo convencional para o sistema de agricultura orgânica.   

Desafios e benefícios da transição

Como muitas histórias de transição para o modelo de produção para orgânico apontam – como o caso anterior publicado pela Flourish – nos primeiros anos de transição a produtividade é bastante inferior à do modelo de produção convencional. Uma das maiores referências na área de estudos de produção orgânica dos EUA, o Rodale Institute, aponta que de forma geral, a produtividade entre os sistemas orgânico e convencional passa a ser “competitiva” após cinco anos do início da transição. 

É louvável o esforço de cooperativas e seus cooperados para fazer esta travessia. Exemplos como o da COOPFAM e das Fazendas Klem, com quem conversamos nos últimos meses, podem certamente oferecer mais ideias e compartilhar também suas experiências. Um case que acompanhamos de perto é o da Cooperativa de Produtores de Café dos Costas de Boa Esperança, que ilustra muito bem esse desafio da transição para o orgânico.

No ano de 2015, 16 de seus produtores, em uma área total de 25 hectares, deram início ao processo de transição para a cafeicultura orgânica. Ao longo dos anos, a produtividade dessa área foi comparada com o restante da produção da cooperativa que ocupava cerca de 2 mil ha. Completados 5 anos dessa transição, o gráfico a seguir destaca a diferença dos patamares de produção orgânica dos primeiros dois anos e dos anos seguintes a partir do terceiro ano.

Produtividade média do Café Orgânico

Além da produtividade inferior nos primeiros dois anos, nesse mesmo período o produtor não tem ainda a valorização do seu café. Só depois de 18 meses vem um primeiro alento, quando o café pode ser comercializado como “Orgânico Brasil”, o que permite um prêmio de algo em torno de 20-30% superior ao preço do café convencional. Somente ao final de 3 anos é possível capturar todo o reconhecimento traduzido no valor pago pela “saca de café orgânico exportação”.

Ou seja, nos primeiros dois anos, produtividade baixa e um preço ainda sem incorporar um prêmio significativo. A partir do terceiro ano, produtividade maior e prêmio superior a 100% do valor do convencional.  

Os dados da última safra, compilados agora no mesmo mês de publicação deste texto (setembro/2020), deixam muito claro o desafio da transição e o benefício, inclusive financeiro, da transição para orgânico.

Análise do resultado do Ano 5 (2020)

Podemos dizer sobre o ano 5:

DESAFIOSOPORTUNIDADES
Produtividade menor
(65% do convencional)
• Custos de produção maiores
(28% de custo superior)
• Maiores descontos do preço final de venda, refletindo que nem todo café produzido é vendido pelo valor máximo da saca (16% de desconto do café orgânico vs. 7% do café convencional)
• Preço saca maior: 140% maior do que o valor da saca de café convencional`
Lucratividade maior: 48% maior do que o café convencional 

Construindo um caminho para mudança

Fonte: banco de imagens Café Abraço

Sentados em nossos escritórios, ou mais provavelmente trabalhando em nossos home-offices, talvez seja fácil pensar de forma racional em quais seriam as melhores decisões para um produtor. Mas, e se esta decisão de transição colocasse em risco o sustento de toda a sua família? Imagine também o que estes produtores escutam quando estão diante da decisão de transição para orgânico? Opiniões dos vizinhos, de consultores, histórias verdadeiras e até algumas lendas de quem passou por esta transição. Há toda uma “cultura” em torno do manejo agrícola com uso de elementos não naturais, modelo mais adotado no Brasil e no mundo que, paradoxalmente, chamamos de “sistema convencional”. 

A partir das análises que esta publicação trouxe, algumas conclusões e considerações podem ser feitas:

  • Produtores que decidem migrar para o modelo de agricultura orgânica precisam atravessar um “vale financeiro” de dois anos, sendo arriscado tomar crédito com visão anual para estas lavouras.
  • Na realidade, produtores decidem pela transição parcial de suas lavouras, contando com apoio das cooperativas, incluindo incentivos financeiros e técnicos para viabilizar a transição.
  • Uma vez atravessado o “vale financeiro” da transição, produtores passam ter lavouras muito mais resilientes economicamente, com lucratividade superior – (que chegou a ser mais de 40% superior no quinto ano do início da transição, como vimos no caso apresentado).  

Existem ainda muitas alavancas para o modelo de produção orgânico, uma vez que esta é uma cadeia muito menos desenvolvida no Brasil do que a do sistema convencional. Por exemplo, os custos de produção de transição são maiores nos primeiros anos, entretanto, um dos benefícios de práticas de manejos sustentáveis é reduzir o custo de produção ao longo dos anos, utilizando os recursos que a natureza já oferece.

Um ponto crucial desta análise é desfazer um dos grandes mitos do campo: a ênfase na produtividade. Ora, em qualquer tipo de negócio, o mais importante é trabalhar pela lucratividade. Esta visão distorcida, muitas vezes leva os produtores a se endividarem e perderem seu próprio negócio numa busca do crescimento de produção a partir de “pacotes tecnológicos”, que por vezes não se paga. 

E se houvesse um instrumento financeiro para incentivar e que fosse desenhado para atender as necessidades específicas desta transição? Para algumas cooperativas que deram início a processos de transição para orgânico, um capital adequado a essa necessidade poderia acelerar a transição de mais áreas – seja de novos produtores, ou de mais áreas por produtor.

Quais seriam os impactos de um instrumento como esse para o produtor? E mais, quais seriam os benefícios econômicos, sociais e ambientais para a cadeia de produção de orgânicos no Brasil?

Fonte: banco de imagens Café Abraço

Transição para Orgânico

Gostou do texto? Participe também do webinar “Transição para orgânico: desafios e oportunidades”, com presença do presidente de duas cooperativas com experiência em transição para orgânico e especialista do setor, dia 20/10/2020, às 16hInscreva-se!


Agradecimento:

Gostaria de reconhecer o trabalho de algumas pessoas para que esta publicação fosse possível. Agradeço a Débora Rabelo, fundadora do Café Abraço, por ter aberto tantas portas de forma generosa e ter aceito o convite para participar desta publicação. Eliezer Reis, presidente da Cooperativa dos Produtores de Café Especial de Boa Esperança, ou carinhosamente conhecida como Cooperativa dos Costas, em seu nome agradeço ao trabalho de tantas pessoas que desde o início deste projeto de transição acreditaram e perseveraram e toda a equipe de apoio da cooperativa – desde que tive acesso aos dados parciais do projeto, sabia que era preciso compartilhá-los com o mundo!


Nota:

[1] FiBL & IFOAM Organics International – The World of organic agriculture – STATISTICS & EMERGING TRENDS 2019

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