A força da natureza e da inovação para transformar a agricultura

Projeto cana verde adotou premissas da agricultura regenerativa e fez de fazenda no interior de São paulo o maior produtor de cana-de-açúcar orgânica do mundo
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É nos primeiros anos do ensino fundamental, nas aulas de história do Brasil Colonial, que começamos a aprender sobre a estrutura fundiária e o desenvolvimento agrário do nosso país. Foi para atender o modelo de “plantations de exportação” de Portugal que a cana-de-açúcar foi introduzida em terras brasileiras. Primeiro em São Paulo, Zona da Mata Mineira e por boa parte do litoral do Nordeste, onde encontrou, no clima e no solo de massapê, as condições ideais para o seu desenvolvimento.

Desde então, a monocultura em grandes extensões de terra se confunde com a história da agricultura no Brasil, intercalando ciclos econômicos importantes como o do café, no Sudeste e do cacau, na Bahia e ainda o do algodão e da borracha. Esse modelo teve um grande impacto na cobertura vegetal do país, especialmente na Mata Atlântica, da qual restam, hoje, apenas 12,4% da floresta que existia originalmente.

Engenho de Itamaracá, Frans Post, 1647

A partir do anos 1960, a Revolução Verde agregou tecnologia à produção de alimentos, especialmente pelo uso de fertilizantes, pesticidas e sementes de alto rendimento. Associado à monocultura, esse modelo consolidou uma visão que associa produtividade agrícola e uso intensivo de insumos agrícolas e, ao mesmo tempo, descarta outros modelos de produção, o que acaba resultando em “desertos verdes”, isto é, centenas de quilômetros quadrados de terras ocupados por uma única cultura, com pouca ou nenhuma diversidade ambiental.

Esse é o modelo que sustenta a produção da soja, hoje o principal produto exportado pelo Brasil, fruto de alto investimento em pesquisa e desenvolvimento de sementes mais adaptadas ao clima quente, gerando forte impacto no Cerrado brasileiro e, mais recentemente na Amazônia.

Para falar de agricultura orgânica, é preciso olhar para a história da formação do Brasil e para o papel que a produção agrícola teve em nosso modelo de desenvolvimento econômico, algo que se reflete até hoje na nossa relação com o campo e em como a maioria dos brasileiros enxergam a  produção dos alimentos. Não é possível pensar em uma agricultura mais sustentável, com um modelo mais justo de distribuição, sem passar por essas questões históricas. Compreender essas raízes profundas pode nos oferecer pistas para entender porque somos líderes mundiais na produção agrícola de diversas culturas – cana-de-açúcar, café e soja, entre elas -, mas temos uma produção orgânica relativa inferior à maioria dos países.

Processos de mudança

Algumas das teorias de mudanças destacam que é preciso atingir uma massa crítica mínima para, a partir de um ponto de entendimento de uma ideia ou adoção de um produto, transformar todo um sistema. Especialistas traçam um percentual entre 5-20% de pessoas que adotam uma nova ideia como um parâmetro de difusão sem volta. Assim se dá com várias inovações introduzidas no mercado. 

Por outro lado, é preciso também entender que alguns setores econômicos estão mais expostos e oferecem condições muito mais favoráveis à mudança. Vejamos o exemplo do setor de telecomunicações. Se há vinte anos, ele era dominado pelas operadoras de telefonia, hoje gigantes de tecnologia dominam o setor. Ou o de aparelhos eletrônicos que são renovados em média a cada 12 meses. 

Em outros setores, no entanto, as mudanças não ocorrem tão rapidamente. A produção agrícola é um deles, um setor com ciclos muito mais longos. Em várias culturas, podem levar alguns anos para colher os primeiros frutos. 

Se hoje no Brasil a agricultura orgânica representa 0,3% da área plantada vis-a-vis, 1,2% da média mundial, é preciso considerar as razões históricas e profundas para isso. Quando consideramos transformar esse cenário, não estamos falando sobre uma grande revolução, mas sobre a possibilidade de atingirmos à média mundial, o que representaria um crescimento acelerado nos próximos anos e décadas e já seria de um salto extraordinário. 

Bons exemplos podem ajudar a visualizar esses novos caminhos!

O caso da Native

Em uma das mais belas e completas reportagens já publicadas em periódicos brasileiros, a revista Época Negócios (agosto de 2009) trouxe a história de Leontino Balbo. Membro da terceira geração de produtores de cana-de-açúcar, foi ele quem teve a visão de substituir as técnicas convencionais de plantio de cana-de-açúcar em uma das fazendas da família pelo manejo orgânico regenerativo e, com isso, viabilizar a certificação de produção orgânica para a Usina São Francisco, a primeira no Brasil a receber uma certificação internacional de produto orgânico, e, posteriormente, criar a marca de produtos orgânicos Native.

Para além da necessidade incontestável de promover transformações favoráveis ao meio ambiente, mudanças no paradigma da produção agrícola são também uma oportunidade de negócio. No caso do Grupo Balbo, uma das principais motivações para esta mudança foi de ordem econômica: o achatamento das margens do açúcar na década de 1980 é apontado como uma das razões para  a transição orgânica dos Balbo. De um lado, o aumento do preço dos insumos agrícolas e, do outro, grandes oscilações nos preços internacionais – leia-se do preço de mercado das commodities. Passadas mais de três décadas, será que esta não é questão comum a várias culturas ainda nos dias de hoje? 

A transição não foi fácil! A história teve muitos percalços e desafios – foram 12 anos de investimentos até que o novo modelo começasse a dar resultado. Um dos desafios foi o desenvolvimento de uma colheitadeira própria para colher a cana verde, a primeira no Brasil, dispensando a prática de colocar fogo na cana para facilitar a colheita. Isso ainda no início da década de 1990, bem antes do governo paulista proibir as queimadas nos canaviais (o protocolo agroambiental do Estado de São Paulo é de 2007). 

“Diziam que eu era um sonhador, que estava destruindo o negócio da família”

Leontino Balbo – Revista Época, 2009

Juntamente com a colheita totalmente mecanizada, Balbo introduziu um novo conceito no Grupo, a produção agrícola integrada à natureza: o terreno do plantio era coberto com a palha da cana, protegendo e nutrindo o solo, por conta da proliferação de microorganismos, animais e plantas; adotou o controle biológico para pragas, por meio da liberação de inimigos naturais das pragas da cana, que exercem um controle natural, sem riscos ao meio ambiente. 

No livro Stirring it up: how to make money and save the world (2008), Gary Hirshberg, fundador da Stonyfield Farm, uma das marcas mais famosas de produtos orgânicos e líder nos Estados Unidos na categoria de produtos lácteos orgânicos, cita Leontino Balbo como um dos grandes exemplos mundiais de fornecedores de sua cadeia de produção. Uma das citações de Balbo no livro reflete sua visão sobre a agricultura:

“Nós tratamos nossas fazendas como um organismo vivo, enquanto muitos produtores (fazendeiros) convencionais tratam suas fazendas como seres doentes”.  

Leontino Balbo

Depois da recuperação da vegetação nativa (de 5% para 14% da área plantada) e da revisão das práticas de manejo, as fazendas do grupo conseguiram produzir 1.600 toneladas de açúcar orgânico. Na década seguinte, já produziam 80 mil toneladas por ano, exportando 70% da produção. 

Quebrando paradigmas

Um dos aspectos que mais impressionam no caso da transição empreendida por Leontino Balbo é o aumento da produtividade. Hoje, são cultivados organicamente mais de 7.500 hectares de terras com cana-de-açúcar na Usina São Francisco. A demanda de matéria dessa usina é complementada com o plantio de mais 6.500 hectares em outra usina do Grupo e de cerca de 330 hectares manejados organicamente por seus fornecedores. A produtividade chega a ser superior a 20% do que a média dos canaviais paulistas. Isso mostra como modelo de produção orgânica que integra e preserva a natureza para produzir alimentos pode apresentar alta produtividade, em larga escala. É um exemplo que derruba vários paradigmas, o de que a produção de orgânicos seria apropriada apenas à pequenos produtores, e que grandes propriedades não sobrevivem sem insumos e defensivos agrícolas.

Fonte: Native, “Perfil de sustentabilidade”, 2019, p. 27, disponível em: https://www.nativealimentos.com.br/sustentabilidade/perfil-de-sustentabilidade

Líder mundial na produção e comércio de açúcar orgânico e presente em 67 países em todos os continentes, a marca Native hoje é o melhor exemplo de construção de empresa e marca baseadas no propósito e na intenção de seus fundadores: ser uma empresa de produtos orgânicos no Brasil, repensando e, às vezes, confrontando uma série de premissas históricas arraigadas no inconsciente-consciente de nós, brasileiros.  

Desde o ano passado, a empresa integra a iniciativa “One planet business for biodiversity” (OP2B), lançada na Cúpula de Ação Climática da ONU em Nova York (2019). Nos últimos anos, Leontino tem se dedicado a um novo desafio, produzir soja e o milho (dois carros chefes da agricultura brasileira) sem uso de defensivos e adubos químicos. Os experimentos têm mostrado resultados que, segundo ele afirmou em entrevista para o jornal Valor Econômico: “vão incomodar muita gente”

Em todo processo de mudança, uma série de novos processos e práticas precisam ser reavaliados. No campo, não existe uma chave que desliga um sistema e liga outro no mesmo instante. Para que um novo modelo se estabeleça, um outro protocolo precisa ser estabelecido. No caso de Leontino Balbo, um sistema de manejo para produção de cana-de-açúcar orgânica teve que ser concebido, com muitas tentativas e erros. 

A partir desse exemplo e de outras experiências bem-sucedidas no Brasil e no mundo, já é possível estabelecer um direcionamento bem mais claro para guiar a transição para produção orgânica na agricultura. Contudo, existe um custo nesse processo de transição, principalmente pela perda de produtividade nos meses ou anos iniciais da transição, dependendo de cada tipo de cultura. Em contrapartida, este “investimento” é recompensado nos anos seguintes por abrir as portas de um mercado disposto a pagar pelos benefícios do produto orgânico e suas externalidades positivas. 

Seria possível tornar essa transição mais suave?

Acompanhe a próxima publicação da Flourish para conhecer outro exemplo instigante de transição para produção orgânica.

CRÉDITOS | Redação: Gustavo Mamão e Patrícia Mariuzzo | Revisão: Patrícia Mariuzzo | Imagens: Bárbara Xavier

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4 Comentários
  1. Muito boa matéria, que nos instiga ainda mais a trabalhar com agricultura orgânica.
    Como fez o sr. Leontino Balbo, com paciência e perseverança, é possível transformar uma situação que da incredulidade de muitos passou a ser a galinha dos ovos de ouro.
    Mais do que nunca, quem pensa no orgânico está no caminho certo.

    1. Isso aí, Sheizi! Paciência e perseverança são palavras associadas a quem tem visão de longo prazo.

  2. Muito bom divulgar este tipo de experiência para iluminar o percurso de produtores que seguem o caminho da produção orgânica. Temos hoje dois talhões certificados orgânicos produzindo café na Serra da Canastra em Minas Gerais. No entanto, passamos pelo desafio de atingir produtividades aceitáveis e achar o mercado consumidor.

    1. Obrigado, José Luiz! Entendi que já completou a transição para orgânico dessa área. Vamos nos falar para sabermos mais sobre seu atual desafio de produtividade e acesso à mercado.

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