O mundo que queremos: orgânico-regenerativo

De agora até 2030, queremos que o mundo orgânico-regenerativo prospere. Elencamos três alavancas para você nos ajudar nessa construção.
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De agora até 2030, queremos que o mundo orgânico-regenerativo prospere. Elencamos três alavancas para você nos ajudar nessa construção.

No final de 2019, influenciei o editorial da Flourish [Negócios com Propósito] a escrever sobre a agricultura orgânica no Brasil. Naquele momento, eu segui a minha intuição de explorar o tema por meio de um diagnóstico leve e interativo sobre negócios relacionados à agricultura orgânica como possível contribuição da Flourish.  

Assim, logo no início de 2020, ainda sem ter ideia do que estava por vir, a Flourish dedicou-se a entender como o segmento de agricultura e alimentação orgânico-regenerativo poderia se expandir tendo como alavanca negócios conscientes de seu propósito. Por trás desses negócios estão agricultores que produzem e vendem alimentos orgânicos; cooperativas que apoiam técnica e financeiramente agricultores e articulam a comercialização de seus produtos; empreendimentos que distribuem e comercializam alimentos; marcas que ora se beneficiam e ora encorajam uma agricultura sustentável em todos os seus aspectos. Tudo chegando na ponta da cadeia de consumo, para atender pessoas cada vez mais conscientes da importância de uma alimentação saudável, que desejam fazer de seu ato de consumir uma ação de transformação sócio-econômica-ambiental.      

À medida que escrevíamos, íamos entendendo melhor sobre o atual momento brasileiro, assim como entrávamos em contato com as melhores fontes de informação e com redes brasileiras e mundiais que trabalham para o crescimento desse segmento. Casos extraordinários de empreendedores brasileiros que transformaram grandes lavouras convencionais em cultivos orgânicos foram revelados. O grande dilema da decisão de fazer a transição para orgânico ficou evidente, levando em consideração os riscos e oportunidades. Sobretudo, ficou clara a necessidade de um mecanismo financeiro específico para apoiar a transição.  

Concluímos que precisamos conciliar três ações para seguirmos adiante no mundo que nos espera pós-2020.

1. Todos devem consumir de forma consciente 

Segundo dados da pesquisa de mercado da Organis, cerca de 1/3 da população brasileira que frequenta supermercados e feiras consome algum produto orgânico a cada seis meses. Sabemos da diferença de preço entre produtos convencionais e aqueles certificados orgânicos. Mas como vimos, a questão do preço não é simplesmente por conta de uma diferença nos custos de produção; mas, sobretudo, pela valorização, pela qualidade e pela forma como o alimento orgânico é produzido; com benefícios que vão além da saúde de quem consome, mas que incluem os cuidados com a água, terra e com os trabalhadores no campo, ou seja, a própria valorização do produtor. 

Uma frase que ouvi nos últimos dias e que repito aqui: “deveríamos escolher nossos agricultores, assim como escolhemos o nosso médico”, afinal são eles que cuidam da nossa saúde. 

As pessoas já entendem este argumento em alguma medida. Em um ano em que atravessamos uma crise mundial de saúde, o crescimento do consumo de alimentos orgânicos foi superior a 20% em diversas partes do planeta.  

Refletindo sobre todas as interconexões globais que testemunhamos este ano, deveríamos expandir esta consciência para além da saúde da nossa família e perceber que os atuais desafios climáticos também nos demandam ações que estejam em linha com o bem comum. Portanto, quando couber no bolso, vale a decisão de consumir com a intenção de construir um mundo melhor para todos. 

2. Mais pessoas devem empreender de forma consciente em agricultura e alimentação 

Em algumas das histórias que revelamos, principalmente de cooperativas de pequenos produtores, fica evidente que os agricultores estão cada vez mais conscientes dos riscos à saúde relacionados à manipulação e aplicação de agrotóxicos em suas lavouras. Para estes pequenos agricultores, o manejo orgânico representa também cuidar da saúde da sua família – um fator determinante para o consumo de produtos orgânicos nos centros urbanos na medida em que o consumidor enxerga esse valor. É, portanto, um benefício que se espelha: quem consome e quem produz orgânico quer beneficiar sua família.  

Me emocionei quando assisti um vídeo de uma cooperativa de jovens produtores do interior do Ceará, a Caroá, que relata um efeito migratório inverso, jovens que querem sair da cidade e voltar para o campo, o contrário do que seus pais fizeram. Eles empreendem a partir de suas raízes culturais e conscientes de seu papel no mundo, com alto potencial de transformação regional. Com todo este propósito, não é por acaso que eles fazem a escolha por uma produção sustentável: “alimentação saudável, limpa e com consciência ambiental”. 

Do ponto de vista das marcas e plataformas de comercialização de produtos orgânicos, trago o exemplo de duas empresas apoiadas pela Flourish, Café Abraço e Orgânicos in Box, que fizeram uma parceria para lançar uma linha de cafés orgânicos de mulheres agricultoras. São exemplos de gotas lançadas em um grande oceano, mas que podem gerar boas ondas como parte do efeito da transformação do mundo em que estamos vivendo. 

Essa conversa de empreender em agricultura e alimentação de forma mais consciente fica ainda melhor quando incorporamos a dimensão “regenerativa”, com potencial de ajudarmos nas reduções dos efeitos das mudanças climáticas. São práticas agrícolas que trabalham para a preservação e recuperação do solo, com potencial de capturar mais carbono para debaixo da terra. Para quem ainda não viu, a dica de início de ano é assistir ao filme Solo fértil na Netflix.  

3. É preciso investir na direção do mundo que queremos

Quando te oferecem a opção de investir em um determinado fundo de investimento, um CDB por exemplo, você sabe como o seu dinheiro vai ser utilizado? Você sabe que valor o seu dinheiro cria no mundo? Algumas plataformas de empréstimo coletivo, como a da Sitawi, permitem direcionar um investimento para projetos que fazem sentido para o investidor, que “conversam” com o que ele acredita. No meu caso, optei por investir em projetos que promovam uma agricultura e um sistema de alimentação mais justos e saudáveis, como descrevem os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Agenda 2030 da ONU, especialmente os Objetivos nº 2 e nº 12. Dei este exemplo em uma publicação que fiz na coluna Pensando Orgânico.

A Plataforma de Empréstimo Coletivo da Sitawi é um exemplo para investimentos de “pequeno porte”, com captações geralmente na faixa de R$300 a 600 mil.  Mas podemos subir a barra e ir adicionando outros produtos financeiros, como CRA (Crédito Recebíveis Agrícolas). Recentemente a Rizoma Agro, empresa do mesmo grupo da Fazendas da Toca, levantou R$25 milhões e teve sua captação marcada como um Green Bonds, dado seu modelo de produção orgânico-regenerativo.  

Além disso, todos investidores em bolsa de valores precisam cobrar mais dos intermediários financeiros (bancos tradicionais e de investimento) para que haja carteiras de ações de empresas marcadas como ESG (sigla em inglês para Ambiental, Social e Governança). Seria muito bom se essas empresas tivessem suas operações no Brasil e que algumas delas também pudessem colaborar com nossa visão de uma cadeia de alimentação saudável para todos.

E é preciso uma dose maior de coragem para criarmos novos instrumentos financeiros baseados nas premissas do mundo que queremos construir pós-2020. Isso porque, “os sistemas agrícolas e de produção de alimentos atendem o ciclo da mãe natureza, não o ciclo do ano fiscal”. A transformação profunda dos nossos sistemas de alimentação terá que passar pela transformação dos mecanismos financeiros, com óticas de investimento muito além do retorno de curto prazo. 

Portanto, a Flourish concluiu 2020 com uma inquietação maior do que a que existia no início do ano, com muita clareza do impulso que trouxe o orgânico-regenerativo para o centro de sua pauta; com a certeza do chamado para fazer sua contribuição e, ainda, com uma superdose de motivação para completar a “gênesis” iniciada no ano que passou. Motivação inspirada pela necessidade de agir para acelerar as mudanças que queremos:

Cada dia é-nos oferecida uma nova oportunidade, uma etapa nova. Não devemos esperar tudo daqueles que nos governam; seria infantil. Gozamos de um espaço de corresponsabilidade capaz de iniciar e gerar novos processos e transformações. Sejamos parte ativa na reabilitação e apoio das sociedades feridas. 

 Fratelli Tutti (03/out/2020): Papa Francisco

Abraços fraternos! Gratidão a todos que nos acompanharam e interagiram até aqui.

CRÉDITOS | Redação: Gustavo Mamão | Revisão: Patrícia Mariuzzo | Ilustrações: Matheus Vigliar

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